sáb
10
jan
2015

“Os vigias nada puderam fazer diante da multidão de ladrões, cerca de 300”

Otávio Sitônio

Os cabras levaram 193 motos do depósito do Departamento de Trânsito do Rio de Janeiro. Foi o maior roubo de motos do mundo. Vai ser registrado no Livro dos Recordes. O fato se deu na passagem do ano de 2014/2015. As motos estavam apreendidas pelo Detro por infrações como falta de emplacamento, de documentos do veículo ou do piloto, documentação atrasada, falta de capacete etc.

Mais de 200 pessoas invadiram o depósito do Detro, administrado pela empresa Rodando Legal, e subtraíram as motocicletas. Muitas dos assaltantes eram casais; saíram com um pilotando e outro na garupa. Não se sabe se tinham habilitação para dirigir. Levaram as motos sem os documentos dos veículos. Elas renderam os dois vigias do depósito, mandaram abrir os portões e fizeram o roubo. Os vigias nada puderam fazer diante da multidão de ladrões, cerca de 300.

Os assaltantes eram comandados por Pinheiro Pimenta, o Playboy, chefe do tráfico no Morro da Pedreira, e Vanilson Venâncio, o Tida, seu imediato. Ora, Tida era o nome da minha avó, que descansa em paz. Testemunhas afirmam que Pimenta disse às centenas de ladrões que participaram da operação: “podem levar, é presente de Natal”. Os meliantes passaram a perna nas motocas e foram embora.

O episódio só foi registrado na polícia no segundo dia do ano bom. No dia posterior a Reis, 97 motos foram abandonadas em frente ao depósito, devolvidas pelos ladrões. Diz a polícia que o estorno do roubo se deu para evitar uma ação de busca e apreensão por parte da PM. Mas só devolveram a metade, pois ainda faltam 96 das 193 roubadas. Como se vê, 193 é um número primo, e não pode ser dividido. Daí porque ficou faltando uma motocicleta na meiação.

Esse ainda não foi o roubo mais audacioso praticado no Brasil. Já houve roubos de armas em quarteis do Exército nos estados do Amazonas, Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. Algumas foram vendidas, outras apreendidas. Mas uma parte está nas mãos dos bandidos, que não têm porte de arma, muito menos para armas de uso restrito e privativo das forças armadas, contrariando o Estatuto do Desarmamento. O Exército avaliou o preço de um fuzil Fal 7.62, no paralelo, em torno de R$ 5.150, à vista.

Esse tal do Estatuto do Desarmamento só funciona contra o cidadão, que não pode ter nem uma garrucha para sua defesa, da família e da propriedade. A recomendação das autoridades policiais é de não resistência, de se entregar tudo aos assaltantes, inclusive mulher e filhas. Mas há bandidos que executam suas vítimas, mesmo sem reação, mesmo elas entregando seus pertences aos meliantes, principalmente se as vítimas forem policiais. Matam-se 12 policiais por mês no Rio de Janeiro, uma grosa por ano.

No episódio do assalto ao depósito do Detro, as motos estavam sob a custódia do Estado e com diárias pagas pelos proprietários. Dentre as devolvidas, muitas estavam depenadas. Não se sabe se foram depenadas após o assalto ou quando estavam apreendidas. Naquele episódio não dava mesmo para os vigias reagirem, pois foram cercados por um batalhão de bandidos, em torno de três centúrias. Só se fosse com uma metralhadora giratória, daquelas de fita, que se vê nos filmes de guerra.

O Bope do Rio começou a fazer o serviço, mas não terminou: subiu os morros do Alemão e da Rocinha, onde matou mais de 200 soldados do tráfico. Isso foi em 2010. Ninguém reclamou. Mas prejudicava o turismo no Rio, e pararam com as operações. Não adianta prender, pois 85% dos apenados brasileiros reincidem. Quinze por cento não se sabe. Como não se sabe quantas vezes um reincidente reincide.

Recentemente os secretários de segurança do Rio, São Paulo e do Espírito Sano pediram no Congresso que se editassem leis mais rigorosas, principalmente nos casos de assassinatos de policiais. Mas nenhum parlamentar ainda tomou qualquer iniciativa. Por sua vez, as polícias matam seis paisanos por dia no Brasil, mais de dois mil por ano. Alegam resistência à prisão. Como são bravos os brasileiros, preferem morrer a se render. Banzai.

*Jornalista, escritor, poeta, ensaísta, publicitário e membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, da Academia Paraibana de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste.


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