dom
02
dez
2018

Aldo Lopes e Paulo Mariano

Por Aldo Lopes de Araújo

A primeira vez que vi Paulo Mariano foi em Manaíra. Eu tinha uns sete anos e corri para debaixo da cama com medo daquele homem que era alto e magro e além de cabeludo e barbudo tinha a fama de ateu e comunista. Naqueles meados da década de 60 — quando os alunos eram obrigados a fazer ordem unida, cantar o Hino Nacional com a mão no peito e rezar a ave maria antes da aula — se defrontar com um ateu e ainda por cima comunista era o mesmo que topar com o papafigo num beco sem saída, se defrontar com o Cão do segundo livro. Nesse dia Paulo dirigia um jipe sem capota, e carregava num reboque uns ossos enormes que tinham sido encontrados durante as escavações da lagoa e disseram ser partes do esqueleto de um animal gigante que há milhares de anos andava por essas bandas.

Algum tempo depois tomei conhecimento de que Paulo saltava do avião em pleno vôo e caía no chão vivinho da silva. Num desses saltos ele acabou caindo em Princesa e não quis mais voltar para o Rio de Janeiro, ia tocar a vida de cabeleira ao vento, guerrilheiro romântico que a ditadura certamente se esquecera de procurar. Passou a dividir o seu tempo entre leituras e conversas com o povo, colhendo matéria-prima para escrever seus livros. Paulo Mariano contagiou corações e mentes de toda uma geração de jovens que tiveram o privilégio de conviver com ele.

Era um homem cordato, às vezes duro e disposto quando a circunstância o exigia, mas sem perder a ternura jamais. Tião Lucena — um dos seus grandes amigos — conta da vez em que se viu na mira de um valentão dentro de um bar e só não tomou no blog porque Paulo sacou uma pistola 45 e enfiou o cano da bicha na boca do sujeito. Virava uma fera na defesa dos seus amigos. Era boêmio, intelectual, teve uns oito filhos e escreveu outro tanto de livros. Excelente cronista, historiador, especialista em tiradas poéticas e frases de efeito capazes de fazer inveja a Alcides Carneiro, Gominho e Geneci Bem. Professor emérito da cátedra da vida, foi no campus universitário do Bar do Gera que Paulo montou seu escritório e deu assistência a uma récua de bêbados, a um sem número de poetas e artistas iniciantes, ali ele emprestava dinheiro a fundo perdido, era o psiquiatra dos pobres e dos desvalidos. Foi ali que um dia ele leu o primeiro conto que escrevi. Leu e gostou e me animou a produzir mais. Foi o meu primeiro crítico literário. Sempre orientou quem estava começando, fosse cantor, poeta, pintor, repentista, aprendiz de feiticeiro, Paulo foi o entusiasta, o incentivador dos principiantes, o orientador, uma espécie de mecenas.

Acabou enveredando pela política, mas se manteve longe das duas oligarquias dominantes. Boca-preta contra rabo-de-couro, duas raças de cachorros ordinários que até hoje ainda se digladiam nas campanhas eleitorais e transformam Princesa numa praça de guerra. Pena que a experiência de vida de Paulo não tenha se revertido em benefício da cidade. Na década de 80 ele foi “o candidato do povo contra os arrumadinhos”. Os arrumadinhos se elegeram e a cidade degringolou para o atraso e o nosso herói perdeu o entusiasmo.

Sempre achei que Paulo Mariano fosse imortal. Nunca o imaginei na desconfortável condição de defunto. Morte não combinava com ele. Por isso não acredito. Como não vi seu corpo, não acredito em sua morte. Não vi não voga. Nem tudo o que o povo diz é verdade. Aquelas fotos do cemitério são fake news. Paulo nunca morreu nem tem inveja de quem morre. Esse cara underground, “gauche” na vida, nascido para desafinar o coro dos contentes, fez a alegria de muita gente com sua verve de contador de história e guerrilheiro romântico do desertão de Princesa.

Paulo fugiu do Rio de Janeiro no auge da ditadura militar, quando era funcionário do IAPB (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários). Perdeu o emprego por abandono de cargo, foi o que disseram na repartição. Que crime ele teria cometido? Em sua ficha no Departamento de Ordem Política e Social — DOPS — encontrada do Arquivo Morto de Realengo, em 1993, por um advogado da família que pleiteava sua anistia, constava a informação de que ele “foi visto no comício da Central do Brasil, do dia 13.03.64, aplaudindo os oradores comunistas”.

Ao tomar conhecimento da morte de Paulo, fiz um comentário no blog do Tião e deixei assente que me recuso a ir a velórios. Não fui ao de mamãe nem ao do meu irmão e se Deus quiser nem irei ao meu. Não gosto do caráter religioso que esses carolas descendentes de portugueses dão às cerimônias fúnebres. Estou fora. E ainda mais quando se trata de um cara como Paulo, o São Paulo nosso de cada dia que aprendemos a querer bem. Faço minhas as palavras do poeta inglês John Donne, quando disse que nenhum homem é uma ilha e que a cada pessoa que morre, um pedaço da gente vai junto. Portanto, nunca pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.


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Aldo, o necrologista! Mais do que as tradicionais exéquias, os velórios histriônicos e sonolentos, os desfiles funéreos pomposos, um texto como esse é um proclama “urbi et orbi”. De fonte segura (em off), relata-se que esse texto foi apresentado como prova testemunhal a favor do inditoso transmutado,quando da sua chegada nos confins celestiais, pelo ínclito Defensor de Ateus e Incréus, junto a Comissão Receptora de Almas, do Sistema de Execução Penal Celestial, tudo nos conforme da legislação imposta desde às origens. Do dito relato, sabe-se também que serviu em contrargumentacão ao Procurador do Diabo – representado por um também conterrâneo… Read more »



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