dom
02
dez
2018

Paulo Mariano, por Domiguinhos

Por Domingos Sávio Maximiano Roberto (Dominguinhos)

Na manhã da última terça-feira, após uma espera de cerca de sete horas, viu Paulo abrir-se a janelinha da recepção do inferno. Aproximou-se e viu que lá estava sentado a uma cadeira, um cão ainda novo, cabisbaixo examinando alguns papeis.
– Bom dia – disse Paulo.
– Bom dia – respondeu o cão ainda de cabeça baixa -, pode dizer…

Respondendo ao cumprimento de Paulo, o cão levantou-se e, sem olhar para ele, abriu uma gaveta e começou a manusear algumas fichas. Paulo observou que o cão, de estatura baixa, bunda grande, daqueles torados no grosso já com doze anos de Inferno, demonstrava alguma intimidade com o ofício.
– Sou Paulo Mariano, de Princesa e vim me apresentar…
O cão virou-se e disse:
– Ôxe, Paulo, que diabo tu tá fazendo aqui?
Ao que Paulo respondeu em repetição ao que disse antes:
– Oxente, morri ontem e vim me apresentar. E tu me conheces?
O cão riu e disse:
– Menino, aqui a gente conhece todo mundo. Olha, teu lugar num é aqui não! Tu num tá em nenhuma lista. Quem te mandou prá cá?
– Ninguém. – respondeu Mariano -. Eu mesmo achei que, depois de morto só me restaria o Inferno, pois, passei a vida escutando de todos que: “Comunista não entra no Céu!”. Ouvi nos catecismos de dona Maria Basílio, nos sermões de frei Damião e nas preleções que João Mandú fazia antes de encomendar vários defuntos, principalmente, quando eu estava presente. Por isso, vim prá cá.
– Sendo assim…, peraí – disse o cão-recepcionista –, vou consultar meu chefe. Adentrou a uma portinhola que tinha ao fundo da salinha de recepção, deixando-a aberta. Ficou Paulo a esperar. Nesse ínterim, começou a ouvir, de longe, vozes gritando seu nome: Paulo Mariano, Paulo Mariano!
Quando o cão retornou, Paulo perguntou:
– porque tantos gritos chamando meu nome?
Ao que o recepcionista respondeu:
– são todos de Princesa.
Aí, Paulo disse:
– Mas, eu não tô reconhecendo ninguém.
Respondeu o cão:
– Ah, meu filho! Lá na Terra pode-se ter a cara de pau, porém, aqui, as caras são todas iguais. Até eu sou de Princesa…! – e continuou – Olha, teu canto num é aqui não. Aliás, vou te confessar um segredo que tu não revelarás a ninguém: ontem, por volta das nove e meia da noite, quando tu já estavas mais prá cá do que prá lá, houve uma reunião de emergência aqui no Inferno e ficou decidido, por unanimidade, que não te receberiam aqui por hipótese alguma. O motivo da recusa: Vai acanalhar outra freguesia, aqui, NÃO!
Aí, Paulo disse:
– Oxente, e eu vou prá onde?
O cão respondeu:
– Vai subindo aí que tu encontras onde pousar prá sempre.
E com essa última resposta, foi fechando a janelinha.
Paulo, mesmo desorientado, seguiu o conselho do recepcionista e partiu ladeira acima. Após sair do calor infernal que circundava a “Geena” lotada de princesenses, avistou algumas parcas nuvens e, dentre elas, identificou um grande portão e pensou é ali. Ao aproximar-se, viu o nome: PURGATÓRIO. Porém, no meio do portão, estava afixada uma tabuleta com a inscrição: FECHADO DESDE JANEIRO DE 2001. Aí se lembrou Mariano de que, o papa João Paulo II, por ocasião das comemorações do “Jubileu do Milênio” e após anistiar Galileu, Copérnico e Joana D’Arc, havia fechado o Purgatório. E agora?
Se não tinha reserva no Inferno e o Purgatório tava fechado, restava-lhe somente o Céu. Mesmo achando esquisito, continuou subindo. Nesse momento, já notou que em suas “apás” já cresciam duas asinhas. Aí pensou: “Eu, Anjo? Não! Isso deve ser prá eu não cair, ou tão zonando da minha cara?”. Logo avistou grande portal todo iluminado. Aproximou-se, em seu voo silencioso, e pousou na frente da entrada principal daquele prédio monumental. Adentrou e foi logo vendo um grande Anjo, todo de branco a acenar-lhe com a mão chamando-o a aproximar-se mais. “Vôte! Pensou Paulo. Que diabo é isso homi? Um anjo me chamando para entrar no Céu?”. Mesmo desconfiado, continuou sua caminhada. Chegado ao umbral do edifício, viu uma ampla mesa em que estava sentado, a uma cadeira em sua cabeceira, um velho barbudo que tinha à sua frente, em cima da referida mesa, um molho de grandes chaves e uma folha de papel. Convidado a sentar-se, Paulo o fez de forma comedida e respeitosa (acho que pela primeira vez na vida, digo, na morte). O velho fez-lhe uma solene saudação e Paulo perguntou:
– Mas…, O que é isso? Aqui não é o Céu?
Ao que o barbudo respondeu:
– Sim meu filho, aqui é o Céu sim e seja bem-vindo.
Essas palavras deram um nó no juízo de Paulo, pois, não acreditava no que ouvia. Mesmo assim, perguntou:
E o que é que eu estou fazendo aqui? Esse é o lugar reservado para a minha eternidade? Por quê?
Diante de tantas perguntas, o velho respondeu recitando, solenemente, o que estava contido na folha de papel:
“Na tua longa vida lá na Terra, defendestes os oprimidos; pregastes a igualdade de direitos para todos; quebrastes a porta da prefeitura de Princesa; distribuístes terrenos para os pobres construírem casas no Jardim Karlota; fostes adversário dos Pereira e dos Nominando; casastes com Terezinha; não frequentastes igreja alguma e, por fim nunca cultivastes a hipocrisia e, por isso, nunca conseguistes ser sequer vereador, escapando assim do fogo eterno. Este é teu lugar, sim. Aqui, poderás, como sempre disseste, observar o teu mundinho lá embaixo [Princesa], sentado numa nuvem, zonando com a cara de todos por toda uma eternidade. Ademais, Paulo, contribuiu muito para a tua estada aqui, a recusa de Lúcifer em te receber lá embaixo, temeroso de que, com a tua irreverência, tu acanalhasse o Inferno. Portanto, fica aí em Paz. Estás agora no “Reino da Gulora!”.

Domingos Sávio Maximiamo Roberto (Domiguinhos), em 23 de novembro de 2018


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Paulo, agora nas hostes celestiais, terá como a máxima bem aventurança, in eternum, de jamais ter de encontrar em seu caminho, as figurinhas diabólicas tipo Dominguinhos et caterva, réus confessos de nefandos pecados. Paulo, ao longe, ouvirá somente os gemidos e ranger de dentes daqueles ex conterrâneos, ao arderem sobre diabólicas churrasqueiras, enrrabados por grossos espetos, sob chamas alimentadas por cachaças de marcas bem degustadas por eles quando vivos foram.
Requiescat in pace, Paulo!



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