dom
09
dez
2018

Por Aldo Lopes de Araújo*

Paulo Mariano

Ouviram do Açude Velho às margens plácidas a voz rouca dos notívagos do bar de Maria de Tia, o brado retumbante dos camaradas de Paulo dando vivas ao prefeito de Princesa pela homenagem. Por força de lei, a partir de então será praça Paulo Mariano aquele espaço, latifúndio afetivo que lhe presenteia o erário municipal. E revogam-se as disposições em contrário. Andou bem o autor da propositura, e melhor ainda Ricardo Pereira que sancionou a lei, conferindo àquele espaço o nome de um idealista, homem culto e entusiasta de tudo o que envolvia o nome de Princesa, o seu povo, sobretudo os sem eira nem beira. Paulo Mariano terá a partir de agora o seu nome vinculado àquela área da beira do açude, o começo da Rua Grande e todo o entorno do bar onde Maria de Tia espalhava mesas com tira-gostos e caldos quentes no fim das madrugadas para a cidade em peso vir tomar a saideira.

A praça será construída perto da casa onde Paulo morou, a poucos passos do solar do velho Joaquim Mariano, o patriarca, a minutos do Jardim Carlota, sua irmã. Aqueles sítios representam o itinerário lírico e sentimental do autor do livro “Princesa antes e depois de 30”. Foi ali onde jogou futebol, pegou mulher, fez pescarias, comeu manga verde, casou-se e criou seus filhos. A justa homenagem a Paulo foi concebida para que ele se sentisse em casa, como se o bar de Maria de Tia não lhe bastasse. Em todo caso, Paulo deve estar feliz na dimensão onde estiver, seja no céu ou no ponto equidistante entre o nada e o lugar nenhum. Diz a lenda milenar dos nativos da Polinésia que em algum recanto do infinito há sempre um astro remoto para cada pessoa do nosso bem-querer. Sou capaz de apostar que Paulo Mariano já tem o “habite-se” da galáxia, não sei se de Andrômeda ou Nebulosa, mas com certeza já se instalou na órbita de alguma estrela.

Sexagenário e a dois passos da aposentadoria e da morte, consoante Chico Florêncio me alertou, vou aproveitar o tempo que me resta e alugar uma casa naquelas imediações do Açude Velho, nos umbrais do bar de Maria de Tia, para ter o orgulho de dizer que moro na praça Paulo Mariano. Pode ser uma casinha sem número, poucos móveis, sem fachada, sem nada, para os Correios me errar, o GPS ficar areado e a alma do finado Zé Góis — carteiro ainda do tempo dos telégrafos com ph — não me encontrar. O sinal da rádio local não passará da soleira da minha porta, e isso é muito bom porque detesto discurso de deputado e mais ainda baboseira de religião. Talvez me faça falta o blog de Zé Duarte, mas estarei livre do IPTU, das contas de água e luz e do carnê do cemitério. Só não abrirei mão dos vales da farmácia de Zé de Edezel — por conta das doenças da terceira idade — e dos penduras no mercado de Lourinho.

De manhazinha sairei para um mergulhar no açude. Espero encontrá-lo limpo, despoluído, como limpo era o nome do homenageado, limpo para nós, não sei se para Deus e Bolsonaro. Mas isso aí é outra história, deixa para lá. Em todo caso, encham o saco do prefeito, principalmente do promotor da comarca, é dever funcional dele zelar pelos recursos naturais. Reivindiquem o restauro da parede do açude, é preciso o embargo das construções de casas para o açude ocupar a sua bacia, cobrir as pedras da Pichilinga, onde o menino Tião Lucena fazia suas safadezas, para voltar ao nível que tinha quando o padre Ibiapina há mais de cem anos fez um mutirão e o salvou. Naquele tempo o Açude Velho não era depositário de lixo, de água servida, de esgotos a céu aberto, afluentes da grande bacia merdográfica da cidade.

A homenagem a Paulo Mariano precisa continuar. Por enquanto temos só o terreno, o papel da lei, a ordem de serviço e a vontade política do Prefeito que pretende tocar a obra. Imagino aquele espaço urbanizado, com saneamento, iluminação, jardinagem. Imagino também as crianças em suas aulas de campo apontando para aquela estátua enorme, de corpo inteiro, e as professoras explicando que aquele é Paulo Mariano, que ele escreveu livros, foi guerrilheiro e coisa e tal. A estátua de Paulo terá de ter a altura do seu tamanho, do seu tamanho moral e intelectual, um Júpiter Olímpico e não um daqueles bonecos de bronze com prisão de ventre, carrancas da estatuária do mau gosto, encomendadas por prefeitos muquiranas e parentes mais ainda, onde a mingua de bronze demonstra que eles subestimam seus antepassados.

Quando a noite chegar, quero me sentar num banco da praça para ficar olhando a estátua de Paulo, lápis preso na orelha, caderno de anotações na mão e apontando para a serra da Baixa Verde, onde fica o Espírito Santo, morada da velha Natália e umbigo de Princesa. A velha senhora tinha uma vassoura e era com esse meio de transporte que ela vinha visitar sua fazenda às margens da lagoa. E era uma vez uma terra desabitada, uma lagoa e uns lajedos e mais tarde sobre esses lajedos foi erigida uma capela e depois o arruado e depois a loja de Severino Almeida, a buate de Bartô, o Bar do Gera, a Praça da Estrela, a Farmácia São José casada com a loja de Madalena, o escritório de Rialtoam, o memorial de Aloysio, a agência do INSS e a Praça Paulo Cordeiro e Silva Mariano com sua estátua diante do Açude Velho, ali onde o padre Ibiapina — ex-presidente da província de Pernambuco e vigário de Triunfo — há quase dois séculos, batina ao vento, mobilizava trezentos homens que jogavam pedra, terra e cascalho, e as águas lavando o paredão do açude prestes a arrombar.

*Aldo Lopes de Araújo, natural de Princesa Isabel, é escritor, jornalista e delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Norte


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