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10
ago
2017

Parece que o Doutor Gabriel olhou no olho do Mapinguari, tais os detalhes e a convicção de sua narrativa

Pereira Sitônio PintoPereira Sitônio Pinto

O Brasil é o quinto país em extensão territorial no mundo – é o que se aprende na escola primária. Mas é o primeiro em terras agricultáveis. Os quatro primeiros países, à frente do Brasil, agasalham desertos em seus territórios. É o caso do Canadá e suas tundras geladas, da China, da Rússia – com a Sibéria condenada ao gelo perpétuo, dos Estados Unidos e os desertos pilhados ao México e o frio Alaska. O Brasil não tem sonoras, gobis, saaras, atacamas, austrálias marsupiais, múrcias quixotescas (onde morava Dulcinéia, a senhora de Toboso). Quando muito guarda, ciosamente, as caatingas até agora incompreendidas na sua finalidade, exploradas equivocadamente pelo homem, fautor que potencia as secas.

Até agora, neste júlio umbroso, só alguns poucos, feito o Doutor Manelito, entenderam e compreenderam o semiárido. Manelito fazendo a maior feira pecuária do Brasil, quiçá do mundo, onde não faltam as cabras leiteiras da Múrcia, a preta murciana, e suas descendentes brasileiras, graúna e caoba. Talvez a terra de Marlboro não tenha uma feira daquela. O evento ocorre no terceiro fim-de-semana de julho. Bois mugindo, bodes berrando, carneiros balindo a verdade da terra, de como ela pode ser bem aproveitada, sem medo de estiagens. Este ano, mais de cinco mil interessados visitaram o Dia D de Manelito, na fazenda Carnaúba, ribeira do Taperoá de Ariano Suassuna. Por sinal, Ariano era sócio na caprinocultura que ele ajudou a criar.

O Dia D deve ser incluído no calendário turístico brasileiro. Tem atrações para isso, agora equipado com o pavilhão Clívia Maria, capaz de albergar confortavelmente a multidão que comparecer ao oásis do Cariri. Os queijos ali expostos à venda são os melhores do mundo, de sabores únicos, para ET nenhum botar defeito. Queijos que inovam o paladar na indústria de laticínios deste planeta vaqueiro. Pode o Semiárido produzir bons queijos? Pode. Tome a rodovia Presidente João Suassuna, e, uma légua ao sul de Taperoá, na margem direita, encontrará a cancela da Carnaúba. Nunca você esquecerá o que verá, a vitória do homem sobre o que parecia deserto.

Essa vitória é hoje administrada pelos filhos de Manelito, todos eles afeitos à lide do campo onde nasceram e foram criados: Carolina, Inês, Manuel Dantas, Daniel e Joaquim. Aprenderam na prática e nas bancas acadêmicas, formados em zootecnia, agronomia, edificações rurais, ciências jurídicas – pois o campo também é feito de leis. Por um largo tempo o cotidiano da Carnaúba fazia parte do currículo universitário: era estágio para os estudantes de zootecnia, veterinária e agronomia, cursos com os quais a Carnaúba tinha convênios. Quiçá ainda tem.

Se houver um deserto brasileiro, será o da Amazônia, o deserto verde e alagado que interessa ainda países andinos – pois a hileia vai do Atlântico aos Andes, no Pacífico, onde mora o Mapinguari. Os ursos habitam o Himalaia, a Europa, a América do Norte, os Andes, fazendo-se ausentes nas terras baixas da América do Sul. Nos países amazônicos, vagueia secretamente o Mapinguari, enorme feito um gorila, fedorento como ele mesmo. Se não for um ente mitológico, será uma espécie de urso, ausente da feira da Carnaúba, com seu olho solitário vigilante na testa.

Quem primeiro me deu notícia do Mapinguari foi o agrônomo Gabriel Farias, que projetou e construiu uma fazenda modelo no Acre, durante a Segunda Guerra Mundial, e a Granja São Rafael, no território do (sic) Paraíba. Parece que o Doutor Gabriel olhou no olho do Mapinguari, tais os detalhes e a convicção de sua narrativa. Ele terá visto esse bicho quando foi projetar e implantar uma fazenda modelo no Acre, durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, fez o mesmo na Paraíba, com a Granja São Rafael.

Nunca mais perca uma feira do Dia D. No próximo ano pode até ter exemplares de mapinguari, aptos para reprodução.

*Jornalista, escritor, poeta, ensaísta, publicitário e membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, da Academia Paraibana de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste.


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