qua
21
nov
2018

Escritor, Jornalista e Historiador Paulo Mariano-1

Nem bem acordo e lá está a notícia que eu não queria receber: Paulo Mariano morreu. Lutou bravamente contra a doença, mas infelizmente desta vez não deu pra ganhar. A morte mais uma vez saiu vencedora. Ela sempre vence. Oh bicha impiedosa!

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A notícia me foi dada pelo seu genro, Luciano, companheiro do velho Paulo nas suas últimas aventuras.

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Segundo Luciano, o velório e o enterro acontecerão no Parque das Acácias, quero crer que já está acontecendo, já que a morte se deu às 23:45 de ontem.

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Paulo planejava lançar seu novo livro, o da sua biografia, ainda este ano em Princesa. Já tinha até local escolhido. Mas não deu.

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Aquele buraco imenso na Praça da Alimentação da Feira da Torre jamais será preenchido. O bode de Elias perdeu metade do sabor. A alegria contagiante de Paulo, mexendo com um, mexendo com outro, cantando as mulheres bonitas, tomando uma e comendo cuscuz, ficará perambulando pelas mesas como um fantasma do bem consolando os amigos que, com certeza, derramarão lágrimas de saudade desse cabra bom que, durante a vida, só fez o bem ao próximo.

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Somos companheiros de longas jornadas. Viemos de lá, do sertão da gente, onde enfrentamos secas e tempestades, lutar e vencer na cidade grande. Lutamos e vencemos, aliás, quase vencemos, porque no meio do caminho havia uma morte para atrapalhar.

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Em certa época da minha vida, numa noite escura, num bar distante, alguém se armou para matar este velho escriba. Paulo Mariano encostou no valentão e exibindo sua famosa 45, avisou ao dito cujo que seria melhor ele sair e não pensar em voltar. O rapaz foi embora e nunca mais voltou.

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Noutra época nos tornamos compadres. Eu e Cacilda padrinhos da filha de Paulo e de Terezinha.

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Pois agora ele repousa. A gente sente a dor da perda, porque jamais nos acostumamos com a morte, embora saibamos que ela, a morte, é certa para todos.

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Que descanse em paz. E que, se houver outro mundo, seja recebido com louvor e abraços.

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Anos atrás, Aldo Lopes escreveu o testamento de Paulo. Um testamento para uma morte que aconteceria em Princesa, na esquina de Coimbra, depois de beber todas no Bar de Gera.

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O Bar de Gera não existe mais. Gera não existe mais. Metade dos que são citados no testamento partiram antes de Paulo. Mas vale a pena transcrever aqui o texto, pois Paulo não quer lágrimas, quer risos, abraços e muita farra para brindar seu adeus.

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Eis o testamento:

Testamento de Paulo

Por Aldo Lopes de Araújo

Quero o meu velório em minha casa. E sem discursos, por favor. Guardem o verbo pro cemitério, à beira da cova é mais comovedor. Não abro mão do bloco dos Arapapacas nem do sax de Manuel Marrocos. Cantem o hino do meu time, o meu samba predileto. E se Terezinha desatar na choradeira, peçam ao doutor Zoma que lhe aplique uma dormideira. Só não me venham com Zé Batista, por favor. Façam uma festa, detesto tristeza. E podem falar dos meus podres, das bagunças que abri, das mulheres que amei, das muitas que não comi, dos cabras que não matei. Digam que fui comunista.

Vou morrer em frente à casa de Coimbra, na cabeça da ladeira que carrega a avenida até a porta lá de casa. A última lapada beberei no Bar do Gera. É só me dar um empurrão na esquina de Afonso que pego logo a embalagem. Meu cadáver vai passar em frente ao prédio da prefeitura, mas dessa vez não irei esculhambar. Vou em silêncio, no respeito, desfrutando da lei da gravidade, a única lei a me trazer um benefício, já que as outras, as do juiz, só fizeram me encrencar. Quando meu corpo bater à porta, a companheira vai me agarrar. Ô vidinha sem futuro, Terezinha.

Quando enfim me levarem ao cemitério, cortem caminho pela Rua da Cadeia, em demanda do Cancão. Nada de subir pela Rua Grande, pra não passar nem por perto da igreja. Não deixem João Mandu se aproximar do meu caixão, ele pode me fazer uma desfeita: desviar o meu cadáver para dentro da matriz. Missa de sétimo dia, nem pensar. Não me façam necrológio. Não noticiem no rádio a minha morte, Zé Duarte não está autorizado. Nada de velas e coroas de flores, nem enfeites no caixão, pois nunca gostei de coisas que não combinam com macho, também não sou terreiro onde se apronta despacho. É perda de tempo e dinheiro.

A minha cova quero que cavem bem distante do túmulo do meu pai, do jazigo dos Pereira, da cripta dos Nominando. Nunca fui rabo-de-couro e detesto boca-preta. Escavaquem lá detrás que onde se enterram os bêbados pés-de-chinelo, os dementes, os loucos da cidade, a vala comum dos sem sorte. Não precisa cruz nem nome ou qualquer indicação. Morte é morte. E eu quero é morrer completamente.

A minha biblioteca doem à escola, meus escritos mandem pra Aldo e minhas roupas deem a Zé Grosso. O resto da cacaria, contando com as duas casas — e que não pude torrar — fica tudo pra família, conforme os termos da lei. Mas por favor, me deixem inteiro, do jeitinho que nasci. Digo isso porque sei que nada em mim dá pra ninguém, porque nunca fui sadio. Meu pulmão é um fole preto, a desgraça do cigarro, tem catarro, infiltração. O fígado virou chiclete, atoleiro de cachaça. E meu coração tão sem graça, não há doutor no mundo que lhe restaure o compasso, que lhe devolva o bolero. No resto não mais se fala, é isso que você vê.

Chegando no cemitério, liberem logo a palavra, soltem as grades do peito, deixe quem quiser falar, os pariceiros, os camaradas, os poucos gatos pingados que irão me acompanhar. Mas me façam uma seleção. Aloysio, não. E Gonzaga nem pensar. Waldemar, Assis Maria, muito menos Rialtoam. Convoquem Dominguinhos para o discurso de encerramento. Disso eu faço questão. E mande ele descer a lenha, que jumento não ressuscita. E após isso cumprido, me cubram logo de terra. Mas antes abram o caixão, puxem minha mão para fora, quero meu dedo estirado, aquele cujo do meio, dizendo taqui pra vocês. Façam isso. E muito obrigado. É essa minha posição. Minha vontade derradeira.

Blog do Tião Lucena


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